Apresento o convite na entrada do Teatro Municipal: Marketing, Atendimento e Vendas. O palestrante, a uns dois anos de ser sexagenário, magreza mediana, cara marcada pelas ex-espinhas da adolescência, terno tapando os quadris com o último botão aberto, calças empapadas no tornozelo – o que o fez parecer mais baixo,gravata amarela - queria que comprássemos o diálogo.
Disse com uma voz que saía do esôfago e se destorcia pela língua:
Disse com uma voz que saía do esôfago e se destorcia pela língua:
- Por que todos os lugares da frente sempre ficam vazios? Por que todos têm medo de sentar-se a frente?
Eu, sentada na última poltrona da última fileira ouviria por longas (e pesadas nas pálpebras) três horas de conversa decorada, cheia de figuras de linguagem, frases feitas e verbos do tipo: vencer, vender, aprender, convencer...
- Crise? Quem a inventou? Tire o “s” e crie!
A primeira hora foi recheada com todo o conteúdo que saltitava de um neurônio para outro, com o caminho mais do que sabido (não que tivesse muitos) e era cuspido pelo falante em questão. Sua fala rápida quase o deixava sem ar porém era um método neuro-linguísitico que pode fazer as pessoas entenderem sua mensagem mais facilmente pois prestam mais atenção e não têm tempo para pensar em outra coisa ou olhar as moscas voando vírgula segundo ele.
Com grande esperança de atingir os presentes com sua ótima habilidade de falar em público, ia fazendo algumas piadinhas, ora com as mulheres, ora com os homens. Todo conteúdo era de extrema importância para aqueles que queriam aprender a “criação de necessidades aos consumidores”.
-Transforme a necessidade latente do seu cliente em necessidade evidente!
O ruído que ouvia era bastante parecido com o papagaio do desenho animado do Aladim. Até que ele poderia se dar bem no ramo de dublagens, nem quis comentar, o cara já se achava demais com toda a história de alta auto-estima dos vendedores.
Dando maior entonação no final das frases e em algumas palavras, de vez em quando sugava o nariz, enrugava as expressões labiais e dizia:
-Gente pobre tem expectativas, quem quer ser rico deve ter al-ter-na-ti-vas!
- Vida e venda têm muito em comum. Ambas começam com v e terminam com a. Portanto, viva a venda e venda a vida!
-Cliente não tem pontos fracos, cliente tem alvos fortes!
-Dê um passo além do medo!
-Não seja um vendedor do tipo: vice-treco do sub-troço. Seja o melhor!
E uma das últimas:
-Um cliente tem três características de demasiada importância: o bolso (cheio), o coração e o cérebro. Notem que o coração fica mais perto do bolso do que do cérebro, não deixe seu cliente pensar, aja emocionalmente que tudo dará certo!
Ele falava de clientes usando terno, meu bolso nunca fica mais perto do coração e ainda bem que eu estava sentada na última poltrona da última fileira, mais perto da porta do que dele.
Fanny Victória
Um comentário:
Ficou muito bom, bonississimo...Adorei...Parabéns!
Bjus
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