Ogênio
Naquele nome livre de todo egocentrismo que podia existir, via um senhor mulato, de chapéu, mochila e uma garrafinha de água empedrada – me pediu para completá-la. Foi entre o almoço do meu chefe e de uma colega de trabalho, nada mais do que trinta minutos de boa prosa, estava perdido por estes lados, vindo de Marília.
À procura de um emprego prometido, sem onde comer e dormir, apenas veio. Encontrou na rodoviária um amigo de outrora que lhe ofereceu abrigo, coisa simples, mas que o ajudaria a enfrentar pares de dias longe de casa. Dizia-se muito forte e útil, – não havia duvidado, coisa de velho que acha que todo mundo estranha sua hostilidade – porém nenhum dos empregos que o traziam a Batatais haviam oferecido algum resultado.
E mais do que a própria filha, que, ele me dizia, começava no primeiro emprego no exato dia, estava feliz e orgulhoso. Mantinha contado com a família por meio de um celular, que tentou vender para comprar a passagem de volta, ofereceram-lhe preço de banana, explicava:
- Um rapaz me ofereceu cinco reais pelo meu celular! Assim eu ficava sem celular e sem passagem, aí não né!
Já havia solicitado ajuda na prefeitura e não pedia para qualquer um que visse na rua não, selecionava aqueles com quem podia conversar e contar toda a sua história. Na repartição pública disseram oferecer passagem somente para aqueles que possuem sessenta anos ou mais. E como nada é para si mesmo, Seu Ogênio não tirou a sorte grande, acabou de completar cinqüenta e nove.
- Que diferença faz um ano? – se perguntava.
Dizia-se bom em matemática, nunca ninguém lhe passou a perna, como dizia. Até um engenheiro que certo dia tentou calcular algumas distâncias para construir uma “bica” em uma mina de água da Fazenda Santo Agostinho, lá para os lados de sua cidade natal lhe pediu ajuda.
Era tamanha a simplicidade que carregava de nascença que não se dizia gênio. De duas, uma: ou a mãe ao conferi-lhe este nome pensava no momento em que todos o pronunciariam “Ogênio”, indicando a prole querida, que se fosse “Eugênio” todo mundo se diria de tamanha inteligência e não seu filho. Ou ela, querendo livrá-lo do ego-maior, batizou-lhe assim para que toda vez que pronunciasse o próprio nome indicasse que gênio não era ele, e sim outro.
Acho a segunda opção mais bem explicativa. Nossa personagem em questão não precisava de um nome que lhe conferisse “o dom de domador de dotes intelectuais”, o mesmo o mostrava constantemente, pela educação, fala simples, preocupado com a família, com a saúde. Onde estará Ogênio agora?
Mar/2010
Fanny Victória

2 comentários:
Que historia linda...real?...conheci um Batista...tal e qual o seu "Ogênio". Homem vindo de longe que perdeu tudo, juntava os
"cobres" para tomar banho na rodoviaria, comer e esperava o último ônibus passar para dormir. Músico de grande nomes, conhecedor de muita cultura. Além daquele dia nunca mais vi Batista. Cheguei achar que Batista fosse só Deus querendo falar comigo...
Bjus
Ah maior parte real, porém com elementos fictícios para deixá-la ainda mais! Me arrepiei quando li seu comentário Sheilinha... das três crônicas que escrevi até hoje essa é a que mais gostei. Bjo minha leitora!!! =]]
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