sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Interrupção de Um Espetáculo

         
















          O relógio despertou com um som mais ensurdecedor do que de costume. Amanda aperta o botão off para desligá-lo e se vira para a direita. “Só mais cinco minutinhos”, resmungou para si mesma. Eram só 6h da manhã e o dia começava com um ar diferente. Lá fora, a rua estava calma, talvez por ser sexta-feira e os trabalhadores estarem sentindo a proximidade do final de semana. A companhia Grupo de Teatro Téspis de Campinas a esperava no Teatro Municipal, às 8h, para a segunda apresentação da peça infantil “As Aventuras do Gato de Botas”.

          Amanda Castro Pimenta, assim era o seu nome artístico. A apresentação para as crianças foi maravilhosa. A atriz estava em cartaz em mais dois espetáculos. Agenda cheia, sucesso à mil. Saindo do Teatro, por volta das 11h, Beto, um amigo, também ator, chamou-a para almoçarem juntos. Há algum tempo já rolava algo mais que amizade entre os dois, nada sério. “Vamos naquele restaurante na Marcondes?”, perguntou Beto.

          Pararam em um semáforo, comentavam sobre obras de grandes autores do teatro brasileiro, riam bastante, conversavam sobre tudo e todos. Fazia bastante calor e andavam com os vidros todos abertos. Amanda realmente gostava da companhia dele. Dobraram a esquina e já estavam na avenida na qual iriam almoçar.

          Andaram alguns quarteirões procurando um estacionamento. Beto, sempre bem humorado, arrancava-lhe uma gargalhada atrás da outra. Uma dessas gargalhadas veio seguida de um soluço. O ator ouviu um disparo e percebeu a interrupção brusca do riso de sua companheira. Ela olhava para o peito, ensanguentado. Beto não sabia o que fazer. Entrou em desespero. Parou o carro. Gritou por socorro. Chamou a ambulância. Amanda ia agonizando no banco de passageiro. Quase sem ar. Ele, desesperado, tocou o carro e a levou ao hospital mais próximo.

          Sábado nublado. Talvez por causa da tragédia. Do lado direito do caixão, lia-se: “Amanda de Oliveira Castro Pimenta, 35 anos, atriz – Enterro às 17h”. Ela ainda usava o nome do ex-marido. Do lado esquerdo, uma coroa enorme de flores. “Temos certeza de que brilhará neste novo palco. De seus amigos do Grupo de Teatro Téspis, fundado em 1974.” Sua filha, de seis anos, chorava ao lado do caixão. Ela morava com a avó e havia duas semanas que não via a mãe.

          Durante vários dias os jornais estamparam:

Bala que matou atriz em Campinas saiu de arma de PM, indica laudo

Vítima foi atingida por bala perdida quando passava de carro em frente a um cartório, onde estaria acontecendo um tiroteio entre um assaltante e um policial

          Nenhum de seus espetáculos fez tanto sucesso quanto esse.


2 comentários:

Anônimo disse...

Fanny, seus textos são ótimos, eu adorei o blog e é claro: já favoritei.
Você tem talento!!
Sucesso em sua vida.
Grande beijo.

Batatais Cultural disse...

Muito obrigada pelo elogio. Só que, curiosa como sou, fico aqui pensando em quem será o anônimo, que pelo texto não me é estranho, porém, não consigo reconhecer. Abraço.