Uma breve análise do significado de uma cena do filme Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes.
Posso analisar a cena em que Lisbela e Leléu estão no cinema, ele devolve o lacinho a ela, se apresenta, e diz que os dois poderiam sair para se conhecerem melhor. A moça diz que é noiva e muda de lugar no cinema, pula para a cadeira da frente. Então Leléu se declara, fala coisas tão bonitas e inimagináveis na vida real, mas tão imagináveis no cinema que a filha do delegado se derrete e não sabe se está vivendo ou encenando. Um beijo acontece, a angulação do casal então se enquadra perfeitamente ao telão do cinema, que coincidentemente mostra o casal de atores bem na hora do beijo, então os atores olham o beijo de Lisbela e Leléu e em seguida se beijam. A reação normal esperada é de que vendo na tela um beijo, o casal real sinta-se “incentivado”, por assim dizer, a beijar-se também, no entanto o que acontece é exatamente o contrário disso, o casal fictício é que se inspira no beijo da vida real. É nítido como no decorrer do filme vida real e fictícia se misturam, neste caso há uma evidência tão grande que chega a ser emocionante o fato de podermos sentir que momentos bonitos como este também acontecem na vida real, como pensa a sonhadora mocinha.
Para um sonhador, a vida real é sempre mais colorida e cheia de encantos. Guel Arraes coloca cada personagem em seu lugar, a mocinha, o vilão, o mocinho e então, o triângulo amoroso. Sem contar o núcleo cômico da cadeia, típica de cidadezinha sem muitos acontecimentos criminosos. A fala nordestida ritmada pela prosa de cordel é deliciosa.

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