segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cultura digital: a colcha de retalhos moderna

Fanny Victória

Quando falamos em retalho logo nos vem à mente fragmentos, pedaços. De acordo com o dicionário, retalho é a parte que se tira, se corta de uma coisa (especialmente de um tecido). 


Mas o avesso da fragmentação é o coletivo. Vários pedaços juntos podem se transformar em uma colcha, como aquelas antigas que as avós faziam. 

Pois bem. Na contracultura moderna há muita gente costurando. Só que nesses tempos as linhas, agulhas e alfinetes são outros. Fazem parte da teia WWW (Word Wide Web), que guia milhões de navegações mundo afora. 

Casa da Cultura Digital - São Paulo
Unir diversos projetos que traduzem informações públicas usando as novas tecnologias de uma forma independente e criativa. Essa é uma das propostas da Casa da Cultura Digital, em São Paulo.

O local reúne pessoas, empresas e ONGs (Organizações não Governamentais) que criam sites, vídeos e programas voltados a conteúdos culturais e políticos.  

Um exemplo é o projeto Esfera, que, por meio da Trânsparência Hacker, desenvolve trabalhos envolvendo política, dados públicos e sites. 

Nesses trabalhos participam pessoas de diversas áreas, como desenvolvimento web, jornalismo, design, gestão pública, direito etc. 

Entre os trabalhos estão os sites Otoridades.com e o Poder Legislar. No primeiro, é possível que os visitantes façam denúncias sobre abuso de autoridades. 

Focado na lei Ficha Limpa, o segundo site disponibiliza informações sobre as possibilidades de a população participar da formação legislativa do país. Para isso, eles explicam como é o processo de vida de um projeto de lei e falam sobre as leis de iniciativa popular. 

A Casa da Cultura Digital tem mais de 50 pessoas envolvidas na sua organização. O prédio, que fica na rua Vitorino Carmilo, 459, no bairro Barra Funda, em São Paulo, abriga projetos como Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, Garapa, Garoa Hacker Clube, Nunklaki, Tatu Peba Produções, Veredas, memeLab, entre outros.


Fontes de informações públicas

Apesar de estar localizada na capital paulista, a Casa da Cultura Digital contribui com o desenvolvimento de programas e sites que disponibilizam informações públicas de interesse nacional, agindo de forma jornalística.
“Quem tem a ganhar, se não houver grandes mudanças e algum tipo de controle sobre a rede, são os cidadãos”, afirma o jornalista Paulo Markun, ex-presidente da “TV Cultura” e ex-apresentador do programa “Roda Viva”. 

Pai de um dos fundadores da Casa da Cultura Digital, Markun integra a organização e afirma que o jornalismo, como profissão, está acabando. “O novo jornalismo será o velho jornalismo, mais militante e diversificado. Como no século 19 aqui no Brasil.”

Exemplo disso é o site “Para onde foi o meu dinheiro”, que, além de simplificar os dados governamentais para entendimento da população em geral, pode ser uma fonte para jornalistas. 

O site foi criado em maio deste ano durante a ida de participantes do projeto Transparência Hacker, que funciona dentro da Casa da Cultura Digital, ao Consegi (Congresso de Software Livre e Governo Eletrônico), em Brasília. 

A plataforma permite que a população acompanhe quanto do dinheiro pago em impostos foi gasto em setores como em educação, saúde, geração de emprego, transporte, segurança etc.

Outro exemplo, também criado no congresso, é o site THacker. Nele estão reunidos diversos projetos experimentais sobre transparência pública como, por exemplo, o “Deputados Analytics”

A plataforma ainda não funciona, mas a proposta dela é mostrar estatísticas dos deputados e gerar rankings com base nos dados disponíveis na página do congresso nacional.  


Wikileaks à brasileira

Também integra a Casa da Cultura Digital a agência de jornalismo investigativo A Pública. Inspirada em modelos existentes em outros países e em especial no Wikileaks – com que mantém parceria, a agência foi fundada em março deste ano pelas jornalistas Marina Amaral, Natalia Viana e Tatiana Merlino.

A agência age de forma independente e produz conteúdos usando creative commons, ou seja, qualquer pessoa pode reproduzi-los em outros meios.

Parceira: entre A Pública e o Wikilearks


Financiamento do jornalismo independente

Outra forma de incentivo ao jornalismo independente são os sites de crowdfunding, que significa financiamento público em inglês. Criado há cerca de um ano, o site Catarse, também ligado à Casa da Cultura Digital, tem essa proposta.

Pessoas ou empresas cadastram projetos e determinam o quanto é preciso para que saiam do papel. As propostas recebem ajuda online durante 90 dias. 

As pessoas podem doar o valor que quiserem aos projetos que julgar mais interessantes. Em troca, elas ganham um prêmio determinado pelos autores das propostas que variam conforme a colaboração.

Até o dia 4 de novembro, o Catarse havia recebido 259 projetos. Desses, 107 foram aprovados e financiados pelos visitantes do site.

Os projetos são divididos em categorias. Do total, 13 propostas foram inscritas em jornalismo, 49 em cinema e vídeo e 15 em fotografia.

Jornalismo

Na categoria de jornalismo, havia cinco projetos bem-sucedidos e outros quatro ainda em votação. 
Um dos projetos jornalísticos financiados, o “Cidades para Pessoas”, tinha o objetivo de viajar por 12 cidades do mundo em um ano e investigar as práticas de planejamento urbano empregadas em cada uma delas.

Por meio de reportagens, o projeto mostraria o que deu certo nessas cidades e poderia servir de exemplo em municípios do Brasil. O projeto teve o apoio de 285 pessoas e conseguiu arrecadar mais de R$ 25 mil.

De acordo com o jornalista Paulo Markun, ex-diretor da Fundação Padre Anchieta e ex-apresentador do programa Roda Viva, o Catarse e outros sites de financiamento colaborativo ainda são um teste. 

“Os primeiros jornais brasileiros não tinham assinaturas, nem anúncios. Viviam de colaborações voluntárias dos leitores. Nada impede que isso ocorra a partir da internet”, disse.


Superdica:
uma próxima viagem a São Paulo pede uma visita à
Casa da Cultural Digital, que é aberta ao público.

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