Era uma manhã como qualquer outra e em frente ao computador, digitava uma Crônica. Nela trabalhei durante horas, lapidando cada parágrafo como se fosse o último. A história saltitava da minha mente, como se fosse ora verdade,ora mentira. “Tudo está correndo bem”, estranhei. Ao longo do dia me aconteceria uma tragédia daquelas.
Saí para o almoço pensando em uma conclusão para meu texto, nada de esplendoroso ou tipo cartada final, pelo contrário, algo bastante simplório. Cada garfada era uma expressão a acrescentá-la – anotando tudo, claro, para não correr o risco de esquecer aquelas chamadas “palavras-chave”. Tinha tudo prontinho e esquematizado, e depois de uma hora e meia, estava pronta para escrever.
Abro a porta da minha sala e me deparo com a cena de um grandioso crime: minha crônica estava presa, havia sido bandidamente presa. “Chamem a polícia!”, gritei. Entrei em pânico. Ela estava a pouco de ser finalizada e poderia sair livre por aí, e naquele momento estava presa, e ainda por cima, incompleta, coitada. “Socorro, chamem os técnicos, bombeiros, nerds da informática...”. Foi aquele alvoroço, helicóptero chegando, resgate, mobilização total. Todos na rua queriam saber o que estava acontecendo, até emissoras de televisão vieram saber sobre o que se tratava tal agitação. Dizia: “Minha crônica está presa naquele micro” e todos os jornalistas lamentavam como se o texto pertencesse a eles próprios.
Finalmente o técnico responsável pelo departamento chegou. Quis se entender sozinho com a máquina e trancou a porta, parecia até aqueles casos de cirurgia em que ninguém pode acompanhar, ou até mesmo segredo de Estado. Senti-me no direito de ficar bem encostada na porta, espiando o que dava para ser espiado – quase nada – pela fechadura. O técnico saiu, olhei para ele como quem pede uma explicação e ele me diz: “Precisaram de um cabo urgente em outro departamento e tivemos que pegar um daqui, rapidinho, agora está tudo no lugar”.
Estaria tudo no lugar ao finalizar minha Crônica. Nunca mais viveria se aquelas luzinhas vermelhas e verdes não se acendessem e a chama que habitava minha mente numa sinestesia fizesse meus dedos deslizarem e eu ouvisse a digitação por todo teclado e fulminantemente colocasse o último ponto final. Os jornalistas ficaram ali a admirar minha impaciência e dependência sobre as novas tecnologias, enquanto isso recebiam notas através de seus celulares, acompanhavam um livro inédito pelo E-book e visitavam o site do jornal em que trabalhavam por meio de um computador do tamanho da palma da mão. Queria mesmo uma máquina de escrever, daquelas bem antigas.
Fanny Victória
2 comentários:
Adorei o texto, o ritmo e a angustia foram transmitidas com naturalidade, o humor sofisticado...Amei...Cada dia mais fã do seu trabalho...Bjus (Aguardando as próximas)
Eeeeeeeeeeei, chefinha! Gostei!
Muito bonito o texto, parabéns! =D
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